by Ana

Um espaço para partilhar as "tolices" de cada dia, de uma forma descontraída, descomprometida e com algum sentido de humor. Only that.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natalite

No Natal de 1985, Elvira já viúva de um casamento que nunca havia celebrado, cansada da luta de uma vida feita de ganhar guerras e perder batalhas, deixou-se vencer pela batalha nostálgica a que chamam magia do Natal.
Certamente, o seu único filho que durante o ano a ia visitando a espaços, passaria lá umas horas antes da consoada, levaria até casa, partilhariam o fiel bacalhau e zás pás trás, à meia noite estaria tudo acabado, pois que o menino já nasceu, a meia noite  marca o tempo e esse dita o calendário e o Natal acabava assim.
Naquele ano, o tempo trocou-lhe as voltas e antes de ter tempo para pensar no bacalhau do Natal e nas filhós da sobremesa, a cabeça começou a andar a roda que nem a lotaria santa. Hoje tropeçava aqui, amanhã ali, depois acolá...
Um dia o tropeção foi tão grande que ficou de boca à banda, como o povo costumava dizer. Repararam então que havia tido uma sucessão de pequenos AVC's, tudo por conta da ansiedade do bacalhau...ou das filhós, ou seja, dele, do Natal.
Valeu, naqueles idos, a medicina já estar suficientemente avançada para lhe permitir o regresso a casa a tempo de a sentar à mesa no dia do bacalhau, não fosse, horas antes do fiel ser servido, a grande lutadora que eu sempre conheci ter revertido o seu estado clínico por completo, e do aperto do coração a crise passou para a largueza dos pulmões, em toda a sua plenitude.
Era mesmo uma declaração de guerra à confraternização cínica, hipócrita e fingida da época. Uma declaração de guerra profunda, visceral, para a qual as palavras lhe faltavam, mas que se podia ler no verde magnético dos seus olhos, nas altas febre que fez os doutores lhe diagnosticarem, sem demoras e margens para dúvidas, a doença de que Elvira padecia: natalite.
E de natalite ficou internada.
De complicações e efeitos secundários de muitas natalites mal tratadas viria a falecer, no mesmo hospital, um mês e três dias depois, antes, pois, que a pascoelite, pudesse agravar ainda mais agonia.
Feliz Natal, Elvira.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Obrigada Pai Natal!!

Ainda ontem escrevi uma carta toda laroca para ti, onde esgrimi o melhor que pude e soube os meus argumentos. Pedi uma prendinha simples e que para além de ser quase um desígnio nacional é uma prenda que fácil, fácil, fácil de conseguir.
Hoje, depois de terminar as reuniões avaliação de Natal, nas quais distribui sorrisos, cincos, quatros, elogios e água benta com fartura, nas mesmas em que rapei um frio de rachar os ossinhos todos, o que é que me ofereces, hem?????
Hem??? Diz lá, vá, confessa lá!!!
Conta lá a curva reta que eu fiz quando a direção assistida do meu carro resolveu fazer boicote aos movimentos circulares desesperados dos meus frágeis braços!!
Conta lá como é que conseguiste que o volante do meu carro, de um momento para o outro, em plena curva, me deixasse de obedecer e fosse direitinho contra o passeio do lado oposto da estrada!
Foi obra do Coelhinho, foi?? Estás feito com ele? Só podes!!
Já não há liberdade de expressão neste país? Já nem ao Pai Natal se pode fazer um desabafo, sem que as forças da opressão se manifestem, logo da forma mais ignóbil possível? 
Deus Nosso Senhor é Grande e não dorme!! Vais ver o que é as renas não obedecerem ao freio/bridão e ires direitinho ao equador!! 



Carta ao Pai Natal

Pai Natal,

Sou uma professora crescida e bem comportada.
Já fui tudo e mais alguma coisa na escola. Professora provisória, Quadro de Zona Pedagógica, Professora normalzinha, Professora Titular, Presidente do Conselho Diretivo, de Comissão Executiva Instaladora, de Conselho Executivo,  do Conselho Pedagógico. Diretora de Turma (o que gosto muito, para bué estranheza do pessoal), Delegada de Grupo, Coordenadora de Departamento. 
Já contei cadeiras, arrumei mesas, cortei fitas, escrevi ofícios, varri o polivalente, instaurei e instruí processos disciplinares, planifiquei aulinhas, dirigi reuniões, fui ao circo, elaborei PCTs, codifiquei provas de aferição, escolhi manuais escolares, adaptei currículos e readaptei as adaptações dos mesmos, escrevi atas, vigiei exames, validei concursos, pesquisei recursos educativos, etc...
Pai Natal, encara o que te venho pedir como um "dois em um". 
É um truque apenas, um truque de Natal, como só tu podes e sabes fazer e que terá um efeito multiplicador que te poupará as energias para Itália, Grécia e com algum jeito, ainda, Espanha.
É simples, além de ser uma velha e tradicional receita tua. Como prenda para este Natal, gostaria que pegasses no Coelhinho e fosses no comboio com ele o os outros Palhaços ao circo (romano), mas não os tragas de volta. Eles são fãs da imigração.

Um beijinho de uma professora bem comportada.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

E já são DOIS!!

Depois de publicar o post "Habemus Papam" reparei na data: 1 de dezembro... 1 de dezembro é a data de aniversário do SHE.
Pois é, há dois anos atrás, enquanto se comemorava, com pompa e circunstância, os não sei quantos anos de uma data que agora estão interessados em deixar cair no esquecimento, estava eu a dar os primeiros passos nestas artes "netísticas".
Confesso que tenho tidos altos e baixos, agora mais baixos do que altos, mas o objetivo mantém-se. É o meu diário de bordo, para quando há bordo, quando há maré.


Habemus Papam

Quinhentas mil vezes apetece-nos abdicar, renunciar, "ipirangar" do papel que Deus ou a vida ou seja lá quem ou o que for nos reservou.
A maior parte das vezes a isso chamam "depressão".
A psi deste filme chamava-lhe "deficit parental". Eu vou nessa!


sábado, 12 de novembro de 2011

Latifúndios

Sempre fui de tudo ou nadas. Mais de tudo do que de nadas, confesso.
Nada de quases ou mais ou menos, ou de próximo de.
Do mesmo modo que latifundiava o meu coração, rasgava os meus sorrisos ou gritava os meus queixumes.
Porque não era de entrega por partes, nunca entendi os números racionais aplicados às emoções, ou ao trabalho, ou à vida, ou seja lá aquilo que fosse e que me envolvesse.
Durante anos a fio fiz regadio intensivo da cultura da menina perfeita. Em tudo e sem margens  de manobra para o quase. E ai da estrela que descesse do céu para o desmentir ou do pássaro que pousasse na janela da avó para semear a dúvida. A menina, a neta, a aluna  perfeita. E essa era a a cultura, sem pousios, que havia plantado no meu latinfundio. E era o tudo.
O avô, que era agricultor e homem da luta, olhava para mim com aqueles olhos um terço doces, um terço embevedecidos,  um terço preocupados, como que a querer dizer-me que até os latifúndios precisam de alternância de sementeiras. Mas eu nunca entendi números racionais e o olhar fracionado dele, para mim, mais não era que a multiplicação dos olhares. Era olhar de bisavô, avô, de pai, de amigo, sei lá...Eu, os latinfundios e de tabuadas só a de multiplicar. E depois, como que a dar-me razão, havia a avó, cujo o olhar era como o meu, latifundiava tudo por onde passava!! E zás, páz, tráz, era um tudo por tudo, que nadas ou quases, não eram com ela!
Daqueles olhos verdes magnéticos da minha avó, que não conheciam uma letra do tamanho de um burro, mas sabiam a tabuada de multiplicar toda na ponta da língua e repudiavam tudo o que fosse fracionar, fiz a minha rosa dos ventos e parti para o latifundiamento de mim, com regadio intensivo, sem direito a pousios nem modernices de reformas agrárias. Tudo à maneira da minha avô.
Foram hectares a perder de vista da cultura emocional híbrida Parvo-esperançosa, bem junto à saída da artéria aorta; do outro lado, perto da entrada da aurícula esquerda, mais não sei quantos ares duma outra cultura experimental,  Dodeixandar. 
Junto ao ventrículo direito, à saída para o pulmão, onde se pretende ar fresco, ai aí... aí foi a desgraça total: fui latifundiar, anos e anos a fio, esses preciosos hectares com a cultura pura do Insiste. Ia indo à bancarrota mais cedo que o país, não tivesse sonhado, um deste dias, com o meu avô.
Foi isso que me valeu, sonhar com esse  homem do sec. XIX, agricultor, que viveu duas guerras, duas repúblicas, a revolução dos cravos, a reforma agrária, e viu a Gabriela, cravo e canela. Disse-me ele, no sonho, que a economia evoluiu e a agricultura também. Que agora quem domina o mercado já não é a America e que o velho sonho europeu já era. Que a Merkel qq dia está tão arrumada como o M. Soares.
Disse-me que devemos arranjar várias bengalas, pois corremos o risco de sofrermos de osteoporose precoce e uma só bengala é pouco. Disse-me que o mundo qq dia é dos chineses e por isso devemos aprender com eles e trabalhar como eles. 
Acordei a pensar que vou latinfundiar arrozais.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Para as minhas memórias



Tenho falado pouco de trabalho ( tenho mesmo?), mas há coisas que são tão encantadoramente doces de ainda tão ingenuamente pueris, que não consigo deixar de registar neste meu qualquer coisa cibernético.
Sempre que nos perguntam as habilitações literárias existem termos, definições, chavões, pomposidades, títulos que nós, adultos, fazemos questão de ostentar, decorar, trazer na ponta da língua, dourando a pílula o mais que possível.
Ninguém é lojista, agora é-se gestor comercial; ninguém é manicure, mas designer de unhas e por aí adiante
Na primeira aula, à semelhança do que se já fazia no meu tempo de menina e moça, pedi aos meus meninos que preenchessem a ficha da caderneta. Umas das perguntas é, como era, "Qual a habilitação literária do pai/mãe". Claro está que tive o cuidado de explicar o significado da terrível e inusitada expressão coscuvilheira, trocando-a, o mais possível, por os miúdos mais básicos que me vieram à memória.
Para que fique registada a nulidade que devo ser enquanto professora, transcrevo algumas das respostas que obtive:


Habilitações literárias do pai : Vivo com a minha avó (obviamente - habitação)

Habilitações literárias da mãe: A minha mãe estudou muito até ir trabalhar para uma escola

Habilitações literárias do pai: Não sei quais são, mas com sertesa são muitas

Habilitações literárias do pai:O meu pai tem muitas habilidades literárias



Quem pode resistir a tanto charme, digam lá?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sexo e matemática



Com esta história da crise, das medidas impostas pela troika, das "gorduras" orçamentais acho que tudo pode servir de pretexto para equilibrem o orçamento da Nação.
Ora, o nosso primeiro, depois de cortar, desmesuradamente, no subsidio de Natal , aumentar o iva do gás e da electricidade, subir escandalosamente os transportes, decide acabar com a comparticipação das vacinas e dos contraceptivos.
Vistas bem as coisas, corta agora, gasta depois a tratar uns tantos (muitos) cancros do colo do útero, a não ser que a próxima medida seja, efectivamente, o fim do célebre SNS...
Quanto aos contraceptivos, cá para mim, essa tem dedo do Nuno Crato. As mulheres e as adolescentes que tornem a fazer continhas de cabeça, à moda da minha bisavó que teve doze filhos fora os ameaços, enquanto estão em pleno acto sexual, que isso só estimula o raciocínio matemático, a lucidez de espírito e a consciência cívica. Afinal, não é assim tão difícil. Entre um ai e um ui, ...
- Espera lá, não venhas já que ainda tenho de ir ver no Ipad quando foi o último período e acrescentar quantos? 14? Epá? Isso dá quanto? Raios, passa do dia 30! E agora passa para o outro mês...afinal quantos são hoje?Tens máquina de calcular? 
- A do telemóvel serve? É que o puto já não leva máquina para a escola, o ministro proibiu!
Exercício mentais deste são fascinantes, estimulantes, enganam o amigo Alzheimer, inclusive.
Nem tudo são espinhos, a natalidade promete crescer de vento em popa e as reformas da gerações futuras estarão, seguramente, garantidas.
Alguém falou em aborto às resmas? ah, logo vi que não!
A isto é que se chama governar!!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

GATAS

Finalmente!!!
Foi impressão minha ou o blogger esteve em greve às mensagens durante o dia de hoje?
Bom, pas très grave.
Em homenagem às minhas filhas adoptivas, a Julieta e a Batatinha, às quais me encontro entregue por tempo indeterminado, mudei o visual do blog.
Assim espero, também, que as línguas viperinas, maldizentes e invejosas se calem e parem de comentar as minhas fotos, o meu encanto e o meu charme natural.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

SHE

Já tinha dito que está é a música da minha vida?
Ainda não?
Pois, então digo-o agora!
É esta, com esta voz. SHE,... she, ououou, she....!



quinta-feira, 28 de julho de 2011

SHE (I)

Imagem daqui


Os seus braços redondos, próprios dos noventa e muitos quilos de peso, dificultavam a tarefa o suficiente para que aquela agulhinha  espetada naquele pedaço de gordurinha fosse tratada que nem um bebé acabadinho de nascer.
A primeira tentativa de infortúnio e má sorte tinha sido feita na noite anterior, pela enfermeira de serviço mas, obviamente, em vão.
Madrugada cedo, já no bloco operatório, o bracinho de Isabel viria então a merecer honrarias de braço de chefe de estado, dado que só a perícia, ou a paciência, da médica anestesista conseguiram o milagre do achamento da veia, tal terras de Vera Cruz no meio de milhas e milhas de oceano. Sabia-se que estava lá, só não se sabia ao certo onde…

- Não mexa esse braço,  Drª Isabel. Se perdemos essa veia, não encontramos outra!
- Estejam descansados, vou portar-me bem. Mas isto está a doeeeer…! Parece que está a infiltrar!!…
- Ora deixe cá ver? Infiltar???Qual infiltrar qual que!  Que nada! Se estivesse a infiltrar já tinha aqui um papo do tamanho do seu pulso! Isso é impressão, é nervoso miudinho. Aí..., esta senhora doutora. Nem parece que é uma mulher cá dos nossos meios. Quantos filhos tem a Drª?
- Três, fora os ameaços. Se a memória não me falha terão sido outros três.
- Hum… isso é que é o que se chama mulher valente, Drª Isabel - retorquiu a enfermeira. Ia sendo meia dúzia, hã! Casa de ferreiro, espeto de pau e é bem certo!
- Mulher valente…? Pois, não sei, não. Não tinha grandes alternativas, os tempos eram outros. Para o bem e para o menos bem e, seja lá isso o que for, hoje há a chamada Educação Sexual, que parece começar mal os miúdos acordam para a vida.
- Tem razão, mas teve três filhos e está a queixar-se de dores por causa de uma coisinha destas? Nem sequer tem agulha lá dentro, sabe? Isso era antigamente. Agora é praticamente um fiozinho de plástico muito maleável que fica dentro da sua veia.  Relaxe que vai tudo correr bem.

E o vai tudo correr bem continuou com mais uma transferência da mercadoria a retalhar. A terceira no espaço de meia hora e num raio de cinquenta metros. Não seria propriamente a dança da cadeira, mas a dança da marquesa.
Linda, sensual e perfumada com o gel anti-séptico do duche das sete da manhã, que se seguira ao clister,  apenas vestia  uma bata retro vintage seexty “verde – esperança”, feita de uma espécie de papel reciclado das revistas de moda ,   ultra anti séptico e semi transparente, o que aumentava o seu grau de sensualidade, atada ao pescoço e aberta atrás, em todo o seu esplendor.

- Vá, vamos lá, Drª Isabel. Esta é a última mudança. Cuidado com o bracinho.

 Desta feita, seria o último transbordo, o derrame para a pole position de todas as marquesas, para o palco,  para ribalta do retalho, onde os focos de luzes não faltavam,  o proscénio, a um palmo do fosso. A mesa de cirúrgia.

- Agora, Drª, faça exactamente como lhe vamos dizer  (como se a Isabel lhe passasse pela cabeça fazer de maneira diferente)
- Escoste –se toda à esquerda,... vá mais um pouco... Um bocadinho mais. Chegue mais o rabinho para a ponta da marquesa.  Agora passe para a mesa. Calma, devagar. Venha mais para baixo. Isso. Agora endireite o tronco para este lado. Estique o braço esquerdo, cuidado com a agulhinha!!! Agora coloque o braço o direito ao longo do corpo.
- O direito sai da mesa- observou outra enfermeira. A Drª Isabel é gordinha. Temos de arranjar uma espécie de tala para o braço caber na mesa.
- Deve estar a brincar! -  disse Isabel, no meio de uma gargalhada.
- Não, Drª, é que a equipa médica tem de caber toda desse lado e o seu bracinho também. É muita coisa, sabe. E para mais um dos cirurgiões também ocupa muito espaço.
-Ah! Estou mais descansada. Logo vi que o problema não me era intrínseco. Afinal é uma questão de logística da equipa médica.

Isabel, apesar das suas formas redondas e dos seus cinquenta anos, era uma mulher bastante  feminina que gostava de mostrar as suas formas, de provocar com as suas curvas e extra-curvas. Achava-se interessante, com alguma piada, sentido de humor, era descomplexada e dona de uma auto-estima capaz de ombrear com a de uma Miss América saída de uma clínica de lipoesculturas. Enfim, uma mulher descontraída, sorridente,  cativante.
Apesar das talas para a mesa de cirurgia ou das picadas para encontrar as veias invisíveis, estava relaxada, sorridente, bastante  auto confiante, atendendo à situação em si, e obedecia, sem pestanejar, a todas as indicações que as enfermeiras que davam.
Afinal, o que se propunham fazer com o seu corpo para ela eram peanuts.   Coisa pouca, em princípio iria apenas retirar um quisto mamário.
Mulher calejada, useira e vezeira em situações cirúrgicas, amiga fiel do bistúri, por mão própria ou alheia, ah! mais corte, menos corte, desde que pudesse continuar a usar os seus decotes, mostrar o contraste da sua tez leite com os ondulado do seu cabelo negro, tal como o da sua avó, nada lhe faria qualquer impressão.
 Chegou a equipa médica, a qual soltou as gracejolas  da praxe, às quais Isabel respondeu, de igual para igual e, mal o anestésico entrou no soro  desejou boa sorte à equipa, fechou os olhos e, sem perder tempo, correu na direcção àquele túnel vazio, oco, isento de gravidade, mas que a puxava com uma força inexplicável a que ela também, inexplicavelmente, cedia.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Who cares?

"Swallows the poisoned apple"
Paula Rego

A direcção do olhar

 
 
"Há quem seja feito de passado, quem viva de histórias guardadas a que chama recordações. Há quem caminhe sem sair do mesmo lugar. Passam os dias, os anos e um dia quando o final se aproxima, não o aceita porque não caminhou para ele. Só então  se dá conta que não tendo passado pelo tempo, o tempo passou por si. 
Não adianta negar, não adianta parar o tempo só porque nós parámos no tempo; ele prossegue alheio à nossa vontade. Passa como  tivesse asas de vento. E quando reclamamos da sua rapidez, responde-nos com altivez : "O tempo é igual para todos, uns vivem-no com o olhar preso no que passou, na infelicidade que viveram, outros têm o olhar apontado para o futuro, aproveitam cada instante para procurar a felicidade que ainda não alcançaram."
E porque o tempo continua a passar, não se esqueçam de escolher a direcção do vosso olhar."

Adaptado do post.it publicado em Pós de bem querer

terça-feira, 12 de julho de 2011

É SEMPRE AQUELE COM QUEM ESTAMOS...



Um dia afirmei, peremptoriamente, que sabia que nunca viria a ser o "love of your live" e que quase tinha a certeza que tu jamais serias o meu "love of my live".
Pensava, então, que a idade que tínhamos (ou temos) nos impedia de tecer todas as cumplicidades que constroem o "amor de uma vida"; ou que o tempo que teríamos pela frente não seria suficiente para nos rirmos de todas as histórias, cantar todas as músicas e ainda construir a nossa história, sem histórias, como tu sempre me pediste.
Um dia, quando tinha quatro anos e umas longas tranças pretas, afirmei, convictamente, que quando crescesse iria ser médica  e descobrir a cura para os ataques do coração.

ILY

segunda-feira, 4 de julho de 2011

E se os "futebóis" pagassem a crise?



Ontem, enquanto me deliciava com uma sardinha assada e uma salada de pimentos, dei por mim a pensar:
Os 85 milhões de euros que a falta de carácter do meu ex muito querido e admirado AVB associada a carteira recheada do Sr. Abramovich do Chelsea largaram nos cofres do FCP, mais uns tantos milhõezitos que o bigboss do Real Madrid pode largar pelo Coentrão, no SLB, já dava para evitar que uns quantos pensionistas levassem o corte anunciado dos 50% no seus subsídios de Natal.
Por esta ordem de ideias, se uma mão cheia de "talentos" futebolísticos vale quase tanto como 20% dessa medida extraordinária, se vendêssemos a Selecção Nacional de Futebol, mesmo em saldos, ao Quatar, ao Bahrain, aos Emirados Árabes Unidos, ou mesmo ao Chelsea (ou ao Real Madrid, quem sabe), com treinador, relações públicas (Eusébio), patrocinadores (Galp e Sagres), e os todos os outros cromos difíceis, será que não conseguíamos o equivalente para pagar a nossa dívida pública?
Aposto que sim!

quarta-feira, 29 de junho de 2011





Vivo obcecada com isto!!!
Estou limitada a um pãozinho por dia (96cal), ao pequeno almoço. Ora, se tomar o pequeno almoço dia sim dia não, e no dia sim  comer o meu adorado croissant sem recheio (192cal), será que se nota muito na balança?

domingo, 26 de junho de 2011

Enjôos ciclicos




Uma amiga que conheci há um par de anos atrás e à qual acho um  enorme piadão pelo sentido de humor que tem e pela capacidade de para falar de coisas sérias como quem conta a história da Carochinha a um primeiro neto, contou-me uma anedota. Não tenho jeito nenhum para estas coisas, mas esta era mais ou menos assim:

" Um marinheiro de longo curso cada vez que estava para embarcar ia à farmácia e, seguindo a velha máxima, aviava-se em terra. De uma primeira vez lá comprou, então, duas caixas de preservativos e três caixas de pastilhas Rennie. E foi para o mar.
Passado algum tempo, antes de tornar a embarcar, retorna à mesma farmácia e vá de reforçar o stock: três caixinhas de preservativos e quatro de Rennie. E fez-se ao mar.
Mais tarde, antes de tornar a embarcar, volta à mesma farmácia, para realizar a mesma compra. Eis senão quando o farmacêutico, profissional experiente e zeloso, atento aos consumos exagerados de certos fármacos, lhe pergunta:
- Ó caro amigo, desculpe lá intrometer-me na sua vida, mas se enjoa porque é que insiste?"



 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sonho e Alma vendem-se: 15 M€ mais uns trocados


Eram duas da manhã e andava às voltas na cama.
Volta para um lado, volta para o outro... volta para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo. E sempre, sempre, o fulaninho na minha cabeça. Há que anos um gajinho não me dava a volta ao juízo desta forma, me tirava o sono desta maneira!!
Mas será que sou só eu que ainda acredito em contos de fadas, em amor incondicional, em sonhos?
Sou uma professorazinha como tantas outras, por este país fora, que viu a carreira ser negociada e (re) negociada pelas sucessivas ministras. Passei do 8ª escalão para o 6ª, num abrir e fechar de olhos. Concretizando, se há cinco anos atrás me faltavam cinco para atingir o topo da carreira, agora faltam-me para aí uns doze, bem medidos. Dito bem e depressa, em meia dúzia de anos trabalhei para perder uma dúzia deles. Perdi autoridade junto dos meus alunos, credibilidade junto da sociedade em geral, poder de compra. Ganhei mais cabelos brancos e muitas e muitas horas de trabalho. Mas não desisti da escola pública, do meu país, da minha escolinha, dos meus meninos, da minha equipa.
Nasci numa família de sportinguistas e, à excepção do meu filho mais velho que aposta ser do contra em tudo e se fez águia, os outros meus filhos seguiram a tradição. Mas eu não! Sou FCP com orgulho, remo contra a maré, aguento firme o elitismo clubistico e quando me  apontam o dedo às "tripeirices" linguísticas, eu devolvo-lhes com os resultados que para mim mais não são do que "tripeirices" de coesão, de trabalho, de espírito de equipa, de amor à camisola.
Apoiei o AVB desd o primeiro segundo. Feelings... senti que iria fazer o meu FCP reviver 89 e os anos de Mourinho. Sentia-o um dos nossos. 
Quando recebi a sms da Vodafone a anunciar a transferência dele para os "bifes" gelei, enregelei. Orfei, de ficar órfã.
Este gajinho, que ainda não se livrou dos cueiros, pode ser um bom treinador, não duvido. Pode saber exercer uma influência magistral sobre a psique de um balneário, concordo. Mas saberá o que é carácter?
Deixa-se uma equipa (a dele, o clube dele, a cadeira de sonho dele), a meia dúzia de dias de começar a preparação da época, por uns bons milhares? Nem que fossem uns muitos bons milhões!!
Epá, AVB, vai pastar caracóis e aprender a ser Homem!!

VENDIDO!
LIBRERO (não de livros, mas de libras!)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Caminhadas

video 


P.S.: Pelos  meios técnicos, da era da pedra lascada, (a câmara do meu telemóvel,  com 3.2 MP), apresento desde já as minhas desculpas.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Romantiquices



Há uns bons pares de anos atrás, aprendi, nos livros da Vida, que nunca deveríamos dizer NUNCA.
Pensando melhor, acho que foi num filme do 007, o "Nunca digas nunca".
Bom, lições à parte, fica a Dionne Warwick, com este convite a um slow à luz das velas, como nos tempos das juras dos amores eternos.

P.S.: Tão amarga que eu estou hoje:))

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Divinal - White chocolate and nuts

                                                     

Hoje descobri esta nova delícia.
Recomendo!


terça-feira, 7 de junho de 2011

FMR



Como disse a Mafalda, tenho a certeza que fizeste "boas viagens"; como desejou o Afonso, estou certa que estás melhor, aliás, onde estás a doença, tal como as malvadas restrições alimentares, são coisas do outro mundo mesmo!
Sei que inveja é coisa feia, mas  enquanto as tuas pernas se tornaram leves que nem asas, eu arrasto as minhas, mesmo com temperaturas perto dos 25ªC; enquanto saboreias as tuas bebincas e os teus pratos de bacalhau, eu olho, pelo canto do olho, as fatias de bolo de chocolate com 800Kcal cada. Aprendi a comer com os olhos. Fecho a boca e mexo, mesmo sem poder, as pernocas, tudo em  nome de mais uns anitos de vida, a aturar ora uns Sócrates, ora uns novatos, com a mesma idade que eu, mas muito menos curriculo. Ah!, não sabes? O PPC ganhou as eleições, é verdade. Foi uma razia à moda antiga! O PP do PP também subiu e o Paulinho ainda inchou mais.A esquerda, ou lá o que isso quer dizer,  quase desapareceu do mapa e o PS vai a votos. Mas o teu favorito não se chegou à frente. Perfilam-se, apenas,  as candidaturas do Seguro e do Assis, por enquanto. O Cavaco está cheio de pressa em dar posse ao Coellhito, já quer que o menino comece o estágio de PM na próxima reunião da CE. Nunca o vi com tanta pressa. Entretanto vai vetando os últimos diplomas da última legislatura.
Não sei onde se meteram os votos dos manifestantes que encheram a Avenida na manif da Geração à Rasca. Ou a tradição já não é o que era, ou os gaiatos acharam que o dia estava bom para o surf e esqueceram-se que o protesto se faz também e, sobretudo, nas urnas.
Hoje não fui. Não estive presente naquele sitio e naquela hora especiais, mas sei que não ficaste zangado. Sei-te, sinto-te presente em todos os momentos e também sei que tu sabes que eu o sei.
Vou dando notícias, embora tu não precises de mim para saberes das novas, verdade? Vê lá se metes umas cunhas aí em cima, ao big boss, aqui pela famelga toda, que isto agora vai ser mesmo a doer...E, como disse um deles, um até logo, até sempre, até já , (até breve).

domingo, 29 de maio de 2011

Republicanices



e reparem que a Sua Majestade bebe água!!

P:S: Pior do que esta (discursar durante o hino) foi o Marocas indicar o caminho a Sua Majestade através de "toques" nas costas. Não sabia que as costas de Sua Majestade eram intocáveis.
Coisas de republicanos, laicos e socialistas...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O meu caso sem Facebook



Foi já há algum tempo, há um bom par de anos atrás ou talvez mais, mas nunca escrevi sobre tal, nem escreveria, pois, como diz a canção, recordar é viver, é há coisas que nem mesmo eu, com todo este ar desempoeirado e esta forma leve e fresca de combater as dores prenhas da vida,  consigo viver duas vezes.
Agora, de um momento para o outro, eis que me entra pela casa adentro, cada vez que ligo o PC, ou a televisão ou abro um jornal (ainda tenho o hábito de os ler em papel, vá-se lá saber pq...), uma execrável  história de um filme colocado no facebook, sobre uma cena de violência sobre uma adolescente.
Há dois/três anos atrás, uma amiga minha convidou-me para tomar o pequeno almoço. 
Enquanto se encaminhava para o meu café preferido, disse-me que tinha uma coisa a contar-me sobre os meus filhos mais novos. Com muita calma, pé-ante-pé, depois de parar o carro, contou-me que um grupo de rapazes de cor mais duas raparigas tinham feito uma espera aos meus filhos e dado-lhes uma sova, dois dias antes. Que tudo tinha acontecido à saída da escola, perto da mesma, cerca das sete da tarde (no Inverno). Que tudo se tratava de ciumes por causa de um rapaz que andava atrás da minha filha e a suposta namorada havia tratado de arranjar maneira de a afastar dele. Que a rixa começara quando as  duas raparigas esperaram a minha filha numa ombreira dum prédio, a puxaram pelo o cabelo e a começaram a agredir. Que o irmão, que a acompanhava de volta a casa, intercedeu a favor de irmã, quando o grupo de rapazes de cor, apareceu e começou a agredi-lo, também. Que a isto só parou porque chegou alguém (um adulto) e perguntou o que se passava, o grupo "contratado" fugiu e os meus filhos foram conduzidos até à porta de casa por esse "alguém".
Não queria acreditar no que estava a ouvir. Recusava-me acreditar no que acabara de ouvir. Não podia ser! Os meus filhos? Não, não pode ser!
Pedi à minha amiga que me levasse até à escola deles. Interrompi-lhes as aulas. Agarrei-me a eles a chorar, mal os vi. Depois, olhei-os de alto a baixo, trouxe-os para casa, quis ouvir da boca deles o que se tinha passado. Aliás, queria ouvir que tudo o que a minha amiga dissera era um engano. Mas não. Tudo tinha sido assim, era verdade. O pai sabia e o corpo deles mostrava que sim.
Não consigo descrever o que senti, porque não há palavras para descrever tamanha revolta, tamanha indignação, tamanha impotência. Todos os meus problemas se relativizaram; todos os problemas do mundo se amesquinharam; aquela agressão bárbara não me saía da cabeça noite e dia. Apresentei queixa na polícia, mas não sabia nomes dos rapazes, ...não chegou ao DIAP.
Quanto às raparigas, alunas da mesma escola, apresentei queixa na escola e também na PSP, mas eram menores e em ambas as situações não havia testemunhas. 
Agora, quando vi esta gravação que colocaram no facebook a abrir telejornais... .Dói, mas dói mesmo.
Nem quero imaginar a dor daqueles pais. Eu só vejo se me apanharem distraída.
Disse.




domingo, 22 de maio de 2011

Músicas da nossa vida

A minha música preferida de todos os tempos é a SHE. É tão preferida, mas tão preferida mesmo, que acho que se um dia tiver um yate, ou um jactozinho, lhes vou pôr o nome de SHE.
Mas isso toda a gente já sabe. Vero?
A seguir vem uma outra, bem velhinha, mas que marcou  uma fase da minha vida. 
É esta:
Por vezes dou por mim a ouvi-la e ouvi-la e ouvi-la e ouvi-la e ouvi-la...
E vocês, qual a vossa música preferida?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A mulificação


A verdade é que já vai no 6º ano consecutivo, mas a verdade também é que só agora me bateu à porta.
E outra verdade mais verdadeira ainda é que, como diz o povinho, só quando nos bate à porta é que sabemos como elas amargam, ou doem, ou lá como queiramos chamar. 
Não, não é a crise. 
É a "mulificação" que fizeram de nós, profs., com esta "estória" das provas de aferição.
Ai não sabem?
Então eu conto. 
Os alunos foram prestar provas que não servem para mais nada senão que para aferir o sistema que todos nós sabemos que está mais do que desaferido por natureza. 
Depois, nós, profs, somos chamados a umas reuniões onde nos são comunicados códigos de aferição (nunca cotações). Desde que o aluno saiba pintar de azul o céu e de verde a terra, tem direito à atribuição de um código. Se pintar sem ultrapassar o risco do horizonte, o código começa por 3, se ultrapassar em 3 milímetros, o código começa por 1, mas se  ultrapassar em   um milímetro, o código começa por 2. E outras coisas assim, por ai fora, que nós, profs, não podemos discordar, temos de aferir com todo o cuidado e rigor, a bem da nação.
O mais interessante é que a par de 45 provas de aferição, com uma média de 40 perguntinhas cada, para codificar, temos as nossas aulinhas para preparar e para leccionar, os nossos testes para fazer, aplicar e também corrigir, mas estes vão contar para a nota do menino e ainda uma dezena de manuais escolares para escolher, com todo o cuidado e rigor, pois vão vigorar nos próximos seis anos. 
Ah! esqueci-me que também continuamos a tentar ter vida própria, mas só tentar, claro.
Hã? O quê? Quanto nos pagam a mais? Mas não leu lá em cima "mulificação"?

domingo, 15 de maio de 2011

Eu sou D.U.R.O.!


Ao fim e ao cabo, depois de facadas e ataques bombistas radioactivos, venci o intruso, o bicharoco maldito e juntei-me aos bravos D.U.R.O's.

Doentes que
Ultrapassaram
Realidade
Oncológica

É caso para dizer:  Não venham eles, mas se voltarem, vou vencê-los!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O amarelo fica-me bem...


Ao passar junto do Estádio de Alvalade, começo a ouvir um barulho semelhante a um bombardeiro.
Será que o SCP contratou o André Vilas- Boas?
Será que a Al-Qaeda retaliou?
Será que tenho um Concorde a cair em cima de mim?
Nã... é tão somente um pneu furado, coisa pouca, na segunda circular e a hora de ponta!
Manual de instruções:
- pega-se no telemóvel e telefona-se para a primeira figura masculina que vem à cabeça (o papá)
- saí-se do carro, procura-se o triângulo e o colete no meio da confusão do porta-bagagens
- veste-se o colete
- coloca-se o triângulo a 10m de distância
- encostamo-nos ao carro, com o nosso melhor sorriso e espera-se que algum cavalheiro se ofereça para acudir, enquanto se forma uma monumental fila na 2ª circular
- 2 minutos depois,... voilá



Só que para azar dos távoras, o pneu suplente estava também furado.
Seguindo o plano B do manual de instruções:
- Telefona-se novamente ao papá
- Chama-se o reboque
- e espera-se.

Entretanto, aprecia-se a confusão que um pneu furado consegue criar na dita artéria de circulação da capital,
acena-se para as câmaras de vigilância e controle do trânsito, falamos com as sucessivas brigadas da autoridade que vão chegando, avaliamos o parque automóvel (em altura de crise), que vai desfilando à nossa frente,  e testa-se o efeito que uma lady vestida com um colete amarelo fluorescente causa no transeuntes.
Ah! depois de tudo, deixei o triângulo esquecido no meio da 2ª circular.

domingo, 1 de maio de 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Parabéns , filhota!



 Não me lembro que palavras se usam nestas ocasiões...
É a terceira vez, em três anos.  Mas esqueci as palavras e perdi-lhes o rasto.
Ainda ontem era algo que mexia dentro de mim e hoje já é minha menina linda que atinge a maioridade.


Parabéns, filhotinha.

BACK TO THE WORK!



E não é que até foi fácilzinho?
A voz, habituada ao descanso, não falhou e a emoção, por ver aqueles olhinhos brilhantes esteve presente, como sempre.
Et voilá, ... era tudo quanto precisava.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

PRESENTE DE PÁSCOA


"Eu queria ser astronauta,
O meu país não deixou,
Depois quis ir jogar à bola,
A minha mãe não deixou.

(...)

Ó meu anjo da guarda,
Faz-me voltar a sonhar,
Faz-me ser astronauta,
E voar...



Assim estou eu....

Queria ir para o Algarve, mas o S. Pedro não deixou;
Queria ir aos Açores, mas o S. Sócrates não deixou;

Mas o meu anjo da guarda fez-me voltar a sonhar;
fez o FCP ir à Luz e ganhar!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mensagem doce

Há um voo que faço em cada madrugada. Abro as asas da esperança e vou até ao ninho que um dia sonhei ser o meu leito de ternura. Nele busco incessantemente vestígios da sua presença. Quem sabe veio por entre as nuvens escuras, quem sabe veio no embalo do vento visitar o meu ninho e nele deixou uma pena branca de paz e de alento. Pouso de mansinho com receio que esvoacem dele os vestígios da sua chegada e da sua partida. Perscruto cada folha que lá coloquei para tornar o mais acolhedor  para si. Toco ao de leve cada grão de terra que o vento  norte deixou na sua demanda. Sondo a brisa, quem sabe as suas asas tenham ensaiado algum voo de coragem até ali, mas no ultimo momento hesitaram e partiram sem chegar a pousar.
 Quedo-me em silêncio, um silêncio que antevê a queda duma lágrima sobre este ninho que nunca foi habitado pelo amor, que nunca foi partilhado por calorosas asas. 
Quantas mais estações vou ter que esperar? Quantos mais invernos irão passar e destruir o ninho que em cada primavera reconstruo para te receber? Talvez seja tempo de partir, talvez seja tempo de construir outros sonhos para sonhar. Talvez seja tempo de ensaiar novos voos, enquanto as asas ainda mo permitem…

Texto recebido por e-mail

domingo, 17 de abril de 2011

A Fraude


"Bem...bom... não foi bem assim... vamos lá ver... estava longe... não foi isso que quis dizer...
Nunca quis cargos de destaque, de protagonismo.
... Tudo não passa de um mal entendido... não gostei... tudo não passa de uma celeuma desnecessária
Só quero servir Portugal!"

quarta-feira, 13 de abril de 2011

E o realejo diz...





Ai ontem tirei barriga de misérias...
Vesti as minhas piores calças de ganga, calcei uns todo-o-terreno velhinhos, coloquei  ao pescoço uma echarpe montes de colorida e já bem esgaçada pelo tempo e ´bora lá que se faz tarde, rumo às Portas de St Antão para ver  e ouvir a Simone.
Lá chegada, pelas nove e tal da noite, sozinha, mas  em boa companhia, no meio da multidão, perguntei:

"Olhe, se faz favor, o Coliseu é para cima ou para baixo?"
"É para cima, minha senhora, logo depois da cruz verde"
Então se é para cima, subamos!

E foi sempre a subir, a subir, a cantar e cantar, a pular e pular, .... porque é a Vida e ela é bonita, é bonita e é bonita e o o porque o realejo diz que eu serei Feliz!
Obrigada a quem me ofereceu o bilhete e obrigada a ti, Simone. És mesmo uma Dragoa!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Mensagem do Tejo


O Tejo, o rio, mandou-me um e-mail que tinha como assunto "MENSAGEM DO TEJO" e dizia assim:

Agora que tens o mar por companhia
Esqueceste este velho rio, chamado Tejo
E como ele se entristece sem ti.
Nas suas águas solitárias pela tua ausência
Reclamam num tímido murmurar de maré.
Esqueceste que foi ele quem uniu as margens
Aquela de onde vieste e aquela onde estás.

Que triste está o Tejo
Sem ver o teu olhar
Sem ver o teu sorriso
Sem respirar o teu ar.

Tolices de um  velho rio dirás, numa gargalhada traiçoeira.
Mas que queres formosa donzela se nestas águas frias bate
o mais quente e saudoso coração?

Ah!, querido Tejo, não sejas ciumento. Sou tua filha, nascida e criada as entre as tuas margens, mas até os rios correm para o mar..., verdade?

domingo, 10 de abril de 2011

CAMINO



"La vida é bella" fez história. Muitas lágrimas correram nas salas de cinema à medida que aquele pai inventava estórias para esconder do seu "picollo" a dura realidade do campo de concentração. Porque aquele pai desempenhava tão bem a sua função de pai, em situações tão limites,o mundo siderou  e o filme encantou.
Mais recentemente, "Precious", a história verídica de uma jovem 16 anos, chocou. "
Precious" uma jovem iletrada, obesa, violada pelo pai, abusada  física e psicologicamente pela mãe, consegue reunir força e coragem para ultrapassar todos os obstáculos, estudar e criar o seu filho recém nascido. Comoveu, sem dúvida.
Este ano, "Biutiful", é o drama de um homem, e pai, praticamente família única de seus filhos, que de um dia para o outro descobre estar às portas da morte. Os receios, as dúvidas, a angustia de os deixar... Tremendo.

Não sei se por estar blindada por tanta coisa que me tem acontecido, ou por ser mesmo mazinha, coração de pedra, mas o que é certo é que nenhum destes me fez correr alguma lágrima, nem sentir um nozinho na garganta ou um leve aperto no peito.
São coisas...
Hoje fui ver "Camino".
Quando o filme acabou, apenas disse à pessoa que me acompanhava: " Não digas nada".
Nada conseguia dizer perante o que acabava de ver. 
Sentia o tal aperto no peito,  e esse nó na garganta. As lágrimas ameaçavam saltar a todo o momento, bastava uma palavra ser dita ou um suspiro ouvido.

Tal como sei que, felizmente, existem pais como o da "Vida é bella" e  o do "Biutiful"  e, infelizmente, mães e pais como o da "Precious", existem muitos e muitos como o da "Camino".
No entanto há uma diferença. Enquanto que os pais da "Precious" são vistos como pessoas não saudáveis e inaptas para educar, os da Camino (a mãe) são vistos como exemplo da sociedade.
Mães/Pais que fazem acreditar que no sofrimento é que está a redenção,  o exemplo a seguir, que é através do sofrimento que se atinge a perfeição do próprio e dos outros;  adultos que educam crianças nestes princípios, que lhes castram os sonhos da infância e da adolescência, será que diferem muito dos pais de "Precious"?

sexta-feira, 8 de abril de 2011

CAMPEÕES!!

Mais vale tarde que nunca.
Aqui está a minha homenagem ao meu FCP!


BLUES FÚNEBRE



Nunca me dei bem com calor excessivo (entenda-se mais do que 25º), com sol em exagero (isto é, nem uma nuvenzita a pintar o céu). 
Como se isto não chegasse ligo a TV e só ouço nomes começados por "Fs". Ele é FEED, ele é FMI, ele é Fitch, ele é ... é Funeral.
Foi exactamente isso que me veio à memória, de tantas vezes ouvir aquele som do F.
Numa destas noites em que o sono não chegava, atormentado por tantos Fs que me ...fraquejam  a alma(o que é que pensavam que eu ia escrever, hem?), pus-me a ver "Quatro casamento e um funeral".
Às duas por três, surge este poema:



BLUES FÚNEBRE

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta.

W. H. Auden

Escusado será dizer que o filme acabou e eu esqueci os malditos Fs, mas fiquei a matutar noite dentro...sem sono, sem vontade de dormir.
Por que será que só damos o real valor a uma pessoa quando a perdemos? Por que temos que perder para aprender o valor real de algo ou de alguém?
Olho para a minha mais assídua companheira destes últimos tempos, a Julieta, uma gata de três patas, já com 15 anos, marrequinha, chatinha, mimadinha, mas má como as cobras. Farto-me de reclamar as dentadas que ela me dá, do pêlo que ela larga, das madrugadas que ela me rouba com o seu miar de bebé mimado a reclamar por colinho...
Mas quando ela se for...quando ele se for "Parem todos os relógios, desliguem o telefone..."

terça-feira, 5 de abril de 2011

Forty 7 or Seventy 4????


Pois é, pois é, estão cheios de razão! Já reclamaram que o meu SHE anda votado ao abandono. 
Nada disse sobre o meu aniversário; não me manifestei sobre a vitória do meu FCP na escuridão da Luz; não comento a desgraça engraçada a que o meu segundo clube (SCP) chegou, nem a malfadada história que se repete do nosso destino inglorioso enquanto Nação que outros mundos deu ao mundo...
Pois não... é verdade.
Gozo os meus últimos dias de férias, reflicto (mas não sobre o acordo ortográfico) e perspectivo o meu retorno (para breve) ao trabalho, após mais de um ano de ausência.
Vagueio entre o mar e os poetas, entre o antes, o agora e o depois.
E querem saber o resultado? No dia em que festejei o meu aniversário, alguns dos presentes interrogavam-se se as velas estariam na posição correcta, isto é: 47 ou 74?
Estou mesmo bem conservada!

quinta-feira, 24 de março de 2011

"E o coelhinho foi com o pai natal e o palhaço no comboio ao circo”



Hoje fui tomar o pequeno almoço fora, a um sitio baratucho, onde, supostamente, os empregados são todos barbaramente explorados, sacrificados, emocionalmente coagidos a aceitarem trabalhar sabe-se lá como e quando, à hora da missa, ou no dia da folga do marido, sem ter direito a abrir a boca. Sim, porque isto de abrir a boca, ou mesmo os olhos, ou mesmo que um suspiro mais profundo à hora de tomar conhecimento do horário do turno da semana seguinte, tornou-se "motivo atendível" para despedimento. 
Ai ainda não se tornou? Têm razão! Essa do motivo atendível era a do Sr. Coelho. Mas se não se tornou, a caminho vêm...
Mas dizia eu que hoje fui tomar o pequeno almoço a um sítio dos "motivos atendíveis" à paulada. Tomei o pequeno almoço no Continente, de Oeiras. 
Espantosamente, o empregado que me atendeu estava terrivelmente bem disposto (ao contrário de mim, que regressava de uma consulta de ginecologia). Era :
"Mais alguma coisa, meu amor?",
" Gosta assim do galão ou quer mais clarinho, minha querida?", 
"Já vai a caminho, meu amor",
"Precisa de colherzinha para o copo de água, minha cara senhora?"
"Que mais esperamos aqui, meus doces?"
Eu estava parva. Pensei, pensei e nada me ocorria que justificasse aquela alegria toda. Fim do mês, emprego mal pago, hora de aperto no trabalho, crise no país,  (claro que o meu pensamento não se imiscuiu na vida privada do senhor..., ora bem).
Por fim, disse à AI que também observava o mesmo:
- Cá para mim aquele ali, é adepto do Coelhinho da Páscoa...

Ora embora eu não goste nada, mas mesmo nada, de estar congelada na carreira, de ter o vencimento cortado, de pagar mais pelos medicamentos e pela alimentação, de (não) pôr gasóleo no carro, a preços proibitivos, de tudo isto e mais alguma coisa....  de Coelhinhos da Páscoa também não. Nunca acreditei neles, tal como já não acredito no Pai Natal.

terça-feira, 22 de março de 2011

Doces PECs



Começo a enfrentar um problema tremendo. Tremendo mesmo.
Mesmo PECaminoso. E já passou do IV... acho que já perdi a conta aos PECados que cometi.
Um PECado aqui, outro PECado ali, mais outro PECado acolá e de PECado em PECado eu vou andando, ou melhor, arrastando, até não poder mais.
Todos os dias prometo não PECar mais, mas eu lá consigo!! Isto de PECar está-me nas veias, o sangue puxa-me para os PECados, os PECs, como eu lhes chamo, para abreviar a situação.
São os PECados de freiras recheados de doce de ovos e açúcar, são os doces PECados com gila e amêndoa, são os PECados italianos na forma de espuma de leite, café, chocolate e natas, são os PECados franceses como escorpiões folhados, estaladiços, a chamar por mim, são os PECados  tipicamente portugueses do enchido do porquinho preto ao néctar do Douro...
Mas agora decidi erradicar todos os PECs da minha vida. De vez e de uma forma imPECável.
Num acto  de contracção (ainda e sempre com c) das despesas e de comunhão com o legítimo,verdadeiro e único PEC IV, de contrição pelos PECs todos a que sujeitei o meu pobre ser, mas não de contradição pelo ser perfeito que almejo alcançar, a partir de amanhã iniciarei uma caminhada matinal, diária,  de 45min, faça chuva ou faça sol.
Dedico todo o sofrimento desta caminhada, todo o sacrifício a que me proponho, à erradicação de todos os PECs que pelas bocas imundas e desesperadas deste país proliferam.

sábado, 19 de março de 2011

Reflexos inconvenientes



Há uns tempos caí o que me obrigou a andar uns tempos de muletas, depois ao pé coxinho e, finalmente, muito a medo, sempre com muito cuidado para não pôr o pé em ramo verde. Até hoje esse cuidado está bem presente.
Depois veio o bicho e as facadas. Cada vez que chegava da faca vinha sem fôlego. Então, para além do medo de pôr o pé em ramo verde, ainda tinha a chatice de ter que pedir licença a um pé para mexer o outro. 
Como sempre fui uma mulher prática, resolvi, literalmente, pendurar-me, dar o braço, a quem estivesse por perto.
Se era a filhota, era a filhota, se era a sobrinha, que fosse a sobrinha,  ou a amiga de longa data, ou  a de curta data ou o papá, ou....
Menos num: o meu filho Carlos! Sim, esse nem um encosto permitia!! "Oh mãe, oh mãe, não venhas com essas coisas!!" 
Pronto, quando estava só com ele, outro remédio não tinha do que olhar melhor para o chão, andar devagar, devagarinho, sempre atrás dele, como fêmea árabe atrás de seu macho.
E lá andei eu, quase durante dois anos, pendurada ora num, ora noutro.
E de braço dado corri montes e vales, praias e arraiais, subi zimbórios e desci a grutas. 
O pé sarou, o bicho deu tréguas, mas o raio do reflexo instalou-se, passou mesmo a reflexo condicionado, não precisa de tocar a campainha como o cão do Pavlov, basta sentir um bracinho livre por perto e zás, lá vai o meu entrelaçar-se!
Só que agora, que já não sou uma doentinha coxa ou uma coitadinha com um intruso a devorar-me as entranhas, vieram-me dizer que este meu reflexo cai mal. Há pessoas que me vêem de braço dado a outras e sentem-se incomodadas. Mas é que se sentem mesmo, amuam, cortam as falas. ..
Devem pensar que estas coisas se podem pegar, ou, outra hipótese, que eu posso comer o braço no qual vou "pendurada".
Cá pra mim são todos uns invejosos/ciumentos, mas eu prometo que vou condicionar este reflexo ao toque da campainha do Pavlov, assim também salivo. Giro, não é?

domingo, 6 de março de 2011

And the oscar goes to...

Já se disse tudo e mais alguma coisa sobre o filme vencedor do Óscar para o melhor filme do ano, eu sei.
Já se disse que Colin Firth esteve divinal no papel de George VI, tal como Geoffrey Rush no papel de terapeuta da fala que, a meu ver, merecia bem a estatueta para melhor actor secundário.
O que ainda não disse é que fui ver este filme duas vezes. Acho que nunca tinha feito tal coisa. Mas ontem fi-lo.
E fi-lo não só para poder deleitar-me com o excepcional desempenho do Colin F e do Geoffrey R., mas, sobretudo para tomar consciência de que quando a força de vontade, a persistência, a tenacidade e a coragem se aliam à necessidade não há impossíveis. Mesmo que essa necessidade seja a de reinar sobre dois terços de um mundo em guerra.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Diálogos


Filha- Mãe quero a carta de condução.
Mãe- Acaba o 12º ano e depois falamos.
Filha- Mas o avô deu-te a carta de condução quando fizeste 18 anos, devias fazer o mesmo comigo. Quando acabasse o 12º ano oferecias-me um carro!
Mãe- A mim ninguém me ofereceu carro algum. Sempre comprei os meus carros.
Filha- Mas os tempos são outros...e já que não vou à viagem de finalistas do 12º ano a Ibiza, podias pagar-me uma viagem a Londres.
Mãe- Sim, filha. E a árvore das patacas é onde?
Filha- Eu nunca peço nada a ninguém. Só estou a dizer...

Personagens:
Mãe- mulher da geração do Portugal na CEE, professora do ensino público, mãe e sonhadora. 
Filha - adolescente de 17 anos da auto denominada geração à rasca, estudante do 12º ano, área de economia. Ambiciona entrar no curso de gestão de empresas de Universidade Nova e seguir carreira política.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"Geração à rasca"


Sinto-me filha de ninguém.
Cria de geração sem nome, sem referência, sem causa, sem mote.
Por alturas de Maio de 68 ainda não sabia ler nem escrever, muito menos que coisas se passavam em França ou mesmo que existiria algo para além de Badajoz da Espanha, donde o meu triciclo tinha vindo.
Um ano depois, em 69, o Homem foi à lua. Foi no dia do casamento da minha prima Lurdes. Mas o que me ficou na memória , nesse dia, foi a conversa sobre uma novidade que as senhoras usavam e, pelos vistos, lhes facilitava a vida. Usavam collants, pela primeira vez, e comentavam a facilidade daquela peça de vestuário.
Como a lua para mim era uma coisa da noite e das histórias da adormecer e as minhas tias diziam que aquilo do Homem pisar a lua era tudo invenção, decidi voltar costas à televisão e ao grupo dos homens e ficar a ouvir as facilidades do uso das collants vs chatice do uso de meias com cinto ligas.
Uns anos mais tarde veio a Revolução dos Cravos, estava eu na 4ª classe e para mim foi dia de festa. Não houve aulas, o meu pai estendeu um porco morto no meio da cozinha da minha avó e, lá em casa da minha avó, juntou-se a família toda, agarradinha à televisão. Perguntavam pelo Spínola, pelo Soares. Eu preferia indagar as entranhas do porco, pois do que se estava a passar nada entendia e nada me explicavam.
Não posso, portanto, dizer que seja da geração que fez ou festejou a revolução de Abril.
Não sou daqueles que levaram com as passagens administrativas pela cara, os anos propedêuticos, os serviços cívicos. Não, nada disso.
Sou daqueles que fizeram o percurso do "certinho e bonitinho", depois da confusão ter acalmado e das experiências da revolução e tentativas de contra-revolução terem serenado. Sou do unificado, do 12º ano e dos números clasus.
Não tendo sido perdida nem achada para essa causa, lembro-me de um dia 12 de Junho de 1985 e do  Portugal na CEE.
A partir deste dia foi ver os milhões (não sei de que moeda) entrarem todos os dias no nosso país e o alcatrão cobrir montes e vales, as mega - barragens pintarem de azul o que antes era verde,
O litoral a "litoralizar" e o interior a "interiorizar"; o Alentejo ora litoralizava ora"coutizava",...
Foi ver um país democrático, laico e republicano, onde a classe média e alta quase não se distinguiam, onde todos os seus  filhos tinham carrinho, casa, emprego, cursos financiados, férias em Cabo Verde, telemóveis, computadores, plasmas, Ipod,... tudo com fartura e sempre na crista da onda.
Há dois dias, perguntei ao meu filho mais velho, que tem 20 anos, quando é que ele pensava arranjar emprego.Ele respondeu-me:
"Oh mãe, tu não vês as notícias?Não há empregos mãe. E os que há são formas de exploração dos jovens. Eu sou da geração à rasca!" 
Calei-me.
Acho que já tenho uma definição para a minha geração:
A geração que teve de tudo, mas gerou a Geração à rasca.